

"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.."
José Saramago
sinopse
Em uma noite quente e silenciosa do interior, Dona Cândida revisita uma vida marcada por um casamento abusivo e a perda de duas filhas. Entre memórias de negligência, fome e violência, ela recorda como o marido, Tunico, transformou sua vida em um pesadelo, a ponto de, após sua morte, ser rejeitado pelo Céu e pelo Inferno, retornando como uma entidade folclórica conhecida como Corpo-Seco. Quando esse ser sobrenatural emerge da cova, Cândida precisa, enfim, enfrentar o símbolo de tudo que a feriu. Armada com objetos que guardou de cada filha, ela transforma o trauma em força e reivindica seu lugar no Mundo.


Dona Cândida do Corpo-seco é um curta-metragem de terror que abraça o imaginário popular brasileiro para discutir as violências de gênero, traumas geracionais e as estruturas patriarcais que atravessam a vida de mulheres no Brasil. Estes temas se juntam metaforicamente para dar vida ao Corpo-seco, uma figura mítica bastante conhecida na região sul e sudeste do Brasil, especialmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, que, embora já tenha aparecido em algumas adaptações audiovisuais, como na série Cidades Invisíveis (2023), ainda possui certo caráter de ineditismo.
A narrativa acompanha Dona Cândida que, após perder duas filhas e envelhecer ao lado de um homem incapaz de amar, se vê obrigada a enfrentar aquilo que nunca deixou de habitá-la: o marido abusivo que retorna da morte como Corpo-seco, um homem que foi tão cruel em vida que a própria terra o rejeita e o cospe como morto-vivo.
Aqui, no entanto, o Corpo-seco não é apenas um monstro do folclore. Ele é a materialização física dos traumas da protagonista, o passado que retorna enquanto não é nomeado, enfrentado e enterrado. O embate entre Dona Cândida e a criatura é menos uma luta física e mais um ritual onde memória e dor se transformam em gesto simbólico de superação.


temas
O filme dialoga com obras contemporâneas que utilizam o gênero do terror para criar uma reflexão crítica, abordando temas como machismo, feminicídio e violência doméstica. Assim como em filmes como A Bruxa (2015), Babadook (2014), Corra! (2017), O Animal Cordial (2017), A Espinha do Diabo (2001) e O Homem Invisível (2020), o horror não é apenas estético, mas narrativo, político e pensado para gerar engajamento do público com questões urgentes da sociedade.

"Deus come escondido, e o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato."
Guimarães Rosa


a jornada de Dona Cândida
Devido a esse caráter, a escolha da protagonista feminina idosa é fundamental. Dona Cândida representa uma sobrevivente; seu corpo e sua memória carregam marcas da opressão, mas também sabedorias adquiridas com o tempo. Sua idade não representa fraqueza; ela afirma a potência da velhice feminina e a sabedoria ancestral em corpos historicamente invisibilizados pelo cinema.
O filme é todo narrado por essa protagonista, criando uma metalinguagem com a tradição oral brasileira e com a forma como histórias e crenças são transmitidas entre gerações. Isso faz com que o terror não emerja somente do susto, mas também da intimidade e da familiaridade da história contada. Além disso, o filme incorpora elementos da religiosidade sincrética nacional, reunindo práticas do catolicismo popular, do candomblé, de oráculos e crendices, não como exotização, mas como parte da vivência, e da força, da personagem.


“Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia.”
Chico Buarque
Na superfície, Dona Cândida do Corpo-seco apresenta uma história de terror ambientada no interior de São Paulo, berço de lendas, mitos e causos de terror. Em camadas mais profundas, o curta se propõe a refletir sobre memória, trauma e violência de gênero, oferecendo ao público uma experiência que combina entretenimento, identidade cultural e reflexão social, sobre uma mulher que, ao enfrentar o monstro, não busca vingança, mas libertação.














